ELA: A DEPRESSÃO

Naquele dia, notei algo diferente. Assim sem mais, notei que não ia conseguir dormir se não tomasse um bom banho. E aí, num clique muito doido, lembrei que tinha sido assim nos vinte dias anteriores (sim, contei!). E me dei conta de que não conseguia mais dormir sem tomar banho.

TOMAR BANHO, GENTCHY! Isso deve ser básico pra todos vocês, mas não era pra mim. Não, nada contra a higiene. Pelo contrário, eu amo estar cheirosa, limpinha e fresquinha. Principalmente, pra dormir. É um prazer que amo me dar antes de dormir. Invisto em vidros de perfume porque pouca coisa na vida me agrada tanto quanto dormir sentindo meu cheiro favorito. Floratta azul, se precisarem de dicas para presente.

Esse clique me trouxe a pergunta mais difícil de fazer. E de responder também. Por quanto tempo, afinal, eu não estive aqui? Por quanto tempo, algo me tirou de mim mesma e me levou pra tão longe? Era por isso que eu sentia essa saudade louca de mim, mesmo estando ali do meu lado?

Quem era aquela que, por longos anos, dormiu na minha cama, comeu a minha comida, vestiu minha roupa, viveu meus dias e não me dava absolutamente nada do que eu gostava? Quem era aquela que parecia gostar de tudo diferente de mim, não me deixava voltar e não contava pra ninguém onde é que eu estava?

Quem era aquela pessoa em preto e branco que me proibiu de ouvir minhas músicas favoritas? Que me fez esquecer que eu amo beijar na boca, andar descalça, me molhar na chuva e sentar com os amigos numa mesa de buteco só pra dar risada de nada?

Quem era aquela que se apossou do meu corpo e me proibiu de dançar? Quem era essa que mal se deixar sentar quieta por cinco minutos seguidos? Que me proibiu de olhar para a cor dourada dos fins de tarde e que era cega para o céu azul de julho que eu tanto amo? Quem era essa que não gostava de mim e ainda assim não me largava de jeito nenhum?

Distraída pelos quens, também quis saber como é que foi que eu conheci essa outra. De onde ela surgiu? Como é que ela tomou conta de mim assim? Como é que ela teve essa autonomia repentina pra conseguir passar tantos anos fingindo ser eu? Como é que ninguém ao meu redor percebeu?

Sentei-me com ela, dia desses. Apontei-lhe o dedo e exigi que se explicasse. Afinal, me roubar tanto quanto ela roubou não é ato que se possa deixar impune! Cínica, ainda riu da minha cara. Quis me incutir uma culpa que estou careca de saber que não tenho, só faltava abstrair. E aquele cinismo todo tornou isso bem mais simples.

Simples, porém, nada fácil. A conversa não foi das mais fáceis. Ela me jogou na cara tanta coisa. Ouvi atentamente. E foi ouvindo assim, atentamente, que descobri que, fingindo ser eu, ela me ensinou coisas que eu jamais teria aprendido só comigo mesma.

Na minha vez de falar, apontei-lhe novamente o dedo na cara. Assim, frente a frente pela primeira vez, ela não tinha como escapar de uma boa sova. Mas ela não baixou os olhos. Nem a cabeça. Ela também ouviu, mas o cinismo não lhe sumiu da cara. Ela sabia que poder que tinha. Com esse poder, tinha me tirado meus melhores anos, eu pensava.

Seguiu a tentar me incutir culpa. Segui a brigar e a gritar que não tinha essa ou qualquer outra culpa. Desaforos trocados, vomitados numa conversa nervosa. Tudo dito, ficamos a nos encarar, sem desviar o olhar. Silêncio de morte, silêncio de desafio. Quem seria a próxima a falar, ou melhor, a gritar? Essa era a pergunta que pairava naquela densidade de palavras mudas.

Longo foi aquele silêncio. Longo demais pra minha mente ansiosa. Mas eu, eu mesma, era forte. Ela nem desconfiava, mas tinha me feito forte assim. Eu também não sabia. E quanto mais eu segurava o encarar, mais me dava conta de que aquilo ali que eu estava conseguindo fazer tinha vindo dela, por ela e graças a ela.

Seu cinismo parou de me parecer tão irritante. Torta como ela era, só queria mesmo era ser eu. E errou a mão nessa querença. Quis ouvir, ver e viver com a minha intensidade. E quis tanto que tomou o meu lugar! E não podendo fazer nada do que eu fazia, tentou mais fortemente. E aí me anulou graças à minha fragilidade pueril.

Sem mim, minha intensidade também se foi. E ela não sabia desfazer isso. Do seu jeito, também tinha fragilidades. Precisava da minha ajuda, mas tinha me derrubado tão bem que nem para o banho eu me levantava. Ela queria ser eu, mas sem mim não conseguia. Sem nem um cadinho de mim, não dava pra sentir como eu sentia, pra ouvir como eu ouvia, pra enxergar como eu enxergava, pra gozar como eu gozava a vida.

Ela me mandou embora e não fazia ideia de como me trazer de volta. Teve até uns dias de desistir também. Os dias mais difíceis, eu me lembro bem, porque vi tudo lá daquele lugar escuro onde estava. Nesses dias, quase fomos embora as duas.

Ali, naquele momento de encarada, ela me pareceu bem menos assustadora, quase coitada. Queria era ser eu, tanto que me mandou embora. E quando não pôde sem mim, não soube me trazer de volta. Eu, nem sabia onde estava e que estava no lugar errado, como ia saber que precisava voltar?

De repente, bem sem querer mesmo, eu notei que ela era eu mesma. E que eu era ela. Partes de um todo enorme. Porções de uma inteira ÚNICA que ainda não tinham se encaixado. Ela só me conheceu primeiro e quis vir se encaixar como parte minha que sempre foi. Era o lugar dela, afinal.

Ela não queria ser eu. Ela era eu, ali querendo pegar carona em todas as coisas que eu fazia, sentia, provocava. Ela só errou a mão de tanto querer. Eu nem sabia que ela existia, óbvio que ia resistir. E minha resistência a ressentiu.

Sim, eu não tinha culpa, mas tinha responsabilidade. Aceitá-la teria sido mais simples, mas como é que eu ia saber que eu podia ser de várias formas e, ainda por cima, de uma forma tão diversa assim? Fizemos as pazes sem que fosse necessária uma palavra sequer. Foi um reconhecimento silencioso e mútuo.

Ela parte de mim. Eu parte dela. Assim, partes uma da outra, seguimos juntas. Ela me deixa tomar banho, dançar e ouvir música de novo. Eu a deixo olhar o pôr-do-sol dourado, sentir o vento nos cabelos e perder tempo olhando o céu azul do mês de julho.

Não é sempre que concordamos, mas ninguém mais manda em ninguém. Somos partes de um todo equilibrado e feliz. Ela, às vezes, quer o que não devia querer. Mas ela nunca mais falou mais alto que eu, desde o dia em que parei de mandá-la embora. Ela vai ficar. Assim eu fico também. Juntas faremos com que venham os melhores anos, que eu achava que tinha perdido. Sei agora que ainda estão por vir.

Janete Helena
Jornalista

Jornalista por paixão, escritora por compulsão e funcionária pública nas horas vagas.