De todas as cores

Naquele dia, ela pegou o violão. Tinha estado ali, sentada, numa manifestação de resistência silenciosa contra o que poderia a ser o resultado das eleições.
O cabelo de cor marcante, o jeito calado e a forma como quase tentava ficar invisível e fora do foco me chamaram a atenção.
Ela não dizia muita coisa. Quem ouvia o que sua voz quase sumida dizia era a amiga de sempre, sentada ao lado. Aliás, ambas não falavam muito com os outros. Mas estavam ali e isso, por si só, já era de encher o coração de esperança.
O cantor da hora resolveu descansar do violão e meio que esqueceu o instrumento, ali, no cantinho do sofá, bem do lado dela. E, seus olhos, que até então tinham evidenciado a timidez fugindo de focos, finalmente pararam num lugar só.
Observando-a, a poucos metros, não dava pra imaginar o que viria a seguir. A menina calada, que parecia não saber se expressar, me deu um tombo.
Sem dizer palavra alguma, pegou o violão com propriedade. Sem pedir permissão, arranhou o instrumento. E não é que eu duvidasse, mas, definitivamente, não esperava por aquela expressão que se mostrou pra mim tão convicta e tão de verdade.
Alheia a qualquer olhar ou observação, somente ligada no que sua parceira de longa data fazia para acompanhá-la, ela tocou, cantou e me encantou. Eu, embevecida com aquela personalidade que preencheu a sala, vidrei naquela cena e não pude olhar para qualquer outro canto.
Estava ali a sua expressão. Ela não fez pra ter plateia. Nem ligava de verdade se tinha plateia ou não. E a plateia, em sua maioria, não estava atenta porque os debates eram acirrados sobre as ideologias políticas do encontro. Ela não fez pelos outros. 
E assim ela se mostrou. Eu, que nada sabia sobre ela exceto o fato de que gostava muito de mudar a cor do cabelo, conheci, enfim, a alma da garota.
Ao fim da música, fiz questão de cumprimentar pela coragem de cantar em público.Invejei tal coragem. Eu mesma não tinha ainda conseguido ter peito pra cantar em público. Ingenuidade minha elogiar. Ela não ligava. Não foi por isso que ela cantou.
Ela não cantou pelo elogio. 
Ela cantou pra mostrar que a música era a única coisa que podia de verdade falar por ela. 
Ela cantou porque cantando podia ser ela mesma e não o que talvez não gostasse de ser.
Ela cantou porque a música era ela. 
Ali, cantando, ela se mostrou doce, segura, corajosa e de uma sensibilidade ímpar. 
Ela pôde ser ela. E isso é pra poucos. Conheço gente de cinquenta que nunca alcançou tal feito. 
Ela não vai mais cantar. E eu não posso expressar o quanto é triste saber disso.
Mas ela cantou. Naquele dia, ela cantou. E, como poucos, ela pode dizer: "Fui eu mesma e gostei."
Jamais me esquecerei da sua coragem de ser!
#BrilhaEstrela e não espere que eu te lamente. Eu sempre vou te comemorar. 
Foi pra isso que você veio!
Foi por isso que você existiu!
E como existiu!
#Amada #Desejada #DeTodasAsCores #ParaALuz #ParaSempre

Janete Helena
Jornalista

Jornalista por paixão, escritora por compulsão e funcionária pública nas horas vagas.